andarilhando com as letras
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Textos
Lallo
O louco - Théodore Géricault

Vozes em off

- É um belíssimo currículo.
- França, Holanda, Itália, EUA, Canadá, Áustria, Japão etc.
- Brilhante carreira, de fato.
- Lamentável acidente.
- O espólio será doado, pela viúva, à Fundação Del’arte.
- Há uma carta-testamento sob custódia do Banco Inglês.
- Será publicada seis meses após o funeral.

Seis meses depois...

Vozes em off

            - dois terços da fortuna acumulada devem ser destinados ao Sr. Stênio Lallo, interno da Colônia Agnes de Deus...
            - Quem é Stênio Lallo?
            - Qual a ligação do artista com este homem?
            - A Colônia Agnes de Deus acolhe pacientes doentes mentais.
            - É inútil contestar, a doação é legal e legítima.
            - Que seja feita a vossa vontade!
          
A colônia

“Agnes de Deus” é um conjunto arquitetônico harmonioso, situado no campo entre muitas árvores.
Seus pavilhões assemelham-se a casas antigas de fazenda onde são distribuídos os pacientes conforme a gravidade da doença.
Os doentes mais agitados ou mais violentos são hospedados numa área especial.
Os demais parecem ter mais liberdade de movimento e se distribuem por diferentes espaços; participam de tarefas como jardinagem, marcenaria e cerâmica.
Outros se dedicam a tarefas artesanais e bem poucos distraem-se com atividades de pintura.
Dentre esses se destaca Stênio Lallo, há cinquenta anos interno na colônia.
Várias tentativas de diálogo com este homem foram frustradas.
Ele não fala, embora não seja surdo-mudo
A assistente social é designada a intermediadora.
Stênio ouve, seus olhos são expressivos e seu sorriso é o de Mona Lisa, de da Vinci. Ele escreve muito, tem pilhas de blocos de apontamentos em seu quarto-atelier.
Após várias visitas ele concorda em ceder um de seus blocos.
A leitura é impossível apesar da grafia impecável; Stênio escreve em Húngaro.
Contrata-se um tradutor, professor do Departamento de Línguas da Universidade.
Stênio faz a seleção do material a ser traduzido mas exige que o trabalho seja feito na Colônia. Evita separar-se de seus escritos.
As primeiras traduções revelam cartas familiares, bilhetes, mensagens a uma irmã. As seguintes revelam cartas a um amigo.
Outro conjunto de escritos revela descrições e relatos de viagens.
O tradutor se surpreende, por se tratar de relatos bastante verossímeis, feitos por alguém que jamais abandonou a colônia. E se interessa pela pessoa de Stênio. Simultaneamente às traduções, passa a investigar sua vida.
Os dados disponíveis são os registros médicos, felizmente arquivados em computador e, desesperadamente tenta comunicação com o impassível interno. Leva-lhe cestas de frutas, balas, biscoitos.
Stênio os distribui entre os outros internos de seu pavilhão.
Leva-lhe um aparelho de som e discos clássicos, que Stênio transfere para uma sala-de-estar  coletiva.
Como arrancar uma palavra de tal personagem passou a ser uma obsessão para o tradutor.
Presenteia a Stênio com blocos de anotações e agendas, e os vê distribuídos entre os seus companheiros.
Ocorre-lhe, então, comprar telas, tubos de tintas e pincéis; abastecer o armário de Stênio com  todo material necessário a um artista. Stênio tranca o armário com cadeado. O tradutor conclui que ainda não tem a sua confiança. A assistente social concorda em ceder cópias dos arquivos médicos para o tradutor que os leva para estudar em casa.

Assim começa a biografia de Stênio.

Stênio foi informado sobre a herança deixada pelo falecido artista célebre. Nenhuma reação de surpresa, alegria ou outra qualquer se percebeu nele.
Foi nomeado um curador para os bens herdados que os deixou sob custódia bancária, mas ele jamais esboçou qualquer reação favorável ou não ao fato de ser agora rico.
A família do falecido artista optou pela discrição com o caso Stênio, o qual permaneceu anônimo, embora milionário.
O tradutor-professor pouco aproveitou dos registros clínicos para identificar seu novo pupilo. Guardou apenas dados referentes aos seus pais, sua naturalidade e ano de nascimento e de internamento na Colônia, e anotou o nome do responsável pelo paciente - sua irmã Stefania, e o endereço fornecido há cinquenta anos passados. Nada havia que o ligasse ao idioma húngaro. Stênio, pelos registros, foi internado aos dezesseis anos de idade. Esquizofrenia.

O tradutor se ausenta do país para participar de um congresso.
Obtém uma lista telefônica da capital húngara e tenta descobrir o sobrenome Lallo. Há S. Lallo na listagem, o tradutor faz a ligação; trata-se de um número comercial e ninguém conhece Stênio ou Stefania Lallo, residentes no Brasil. Coincidência apenas.
No aeroporto, aguardando a chamada para embarque, o tradutor percorre uma pequena livraria e encontra exposto o álbum das obras reunidas do falecido artista; excelente presente decide comprar.

Retorna da viagem.
Ao encontrar-se novamente com Stênio, oferece-lhe o livro. Ele se interessa e passa a folheá-lo lentamente, apreciando as fotos com solenidade. O tradutor finge concentrar-se na tradução dos manuscritos e começa a observar as reações de Stênio, apenas curiosidade.
Passaram dias e as tentativas de comunicação verbal não apresentaram qualquer progresso.
As traduções continuaram; o material revelava a descrição de sonhos, alucinações, textos sem nexo e muitas cópias, assemelhavam-se a rascunhos.
Stênio voltou a escrever, mas curiosamente intercalava as páginas escritas às páginas do álbum de pintura presenteado pelo tradutor. Nesta tarefa ignorava completamente sua presença.
Uma manhã o tradutor deparou com uma carta diferente das demais traduzidas até então; parecia destinada a alguém que lhe fazia cobranças, exigências ou mesmo chantagem.
Fez um bilhete a Stênio, perguntando sobre o destinatário daquela carta especial. Evitou perguntar diretamente, de forma pessoal; não sabia ainda como lidar com o seu silêncio. Deixou o bilhete sobre uma escrivaninha e se despediu.
Uma manhã, encontrou sobre sua mesa de trabalho na Colônia um pacote; Stênio não estava no quarto, fora removido para uma enfermaria com febre e suspeita de pneumonia.
O pacote continha o álbum e algumas anotações à margem de cada fotografia feitas em inglês. A maioria das frases repetia “Sou eu”, outras “estou aqui”, algumas diziam “pedaço de mim”, outras “tenho sede” ou “estou cansado”. Este fato intrigou o tradutor.
Felizmente a recuperação de Stênio foi rápida e logo estavam reunidos, embora cada um com sua ocupação - tradução e anotação, respectivamente.

Trechos selecionados pelo tradutor:

            Qualquer dia do inverno de 48
            Roger veio pedir que preparasse um quadro
            Trouxe todo o material e um retrato de Stefania
            Prometeu que eu a veria em breve...

            (outro dia)
            Está muito frio
            Roger trouxe cobertores e levou o quadro
            Perguntei por Stefania, ele prometeu trazê-la
            Preparei um bilhete, ele esqueceu sobre a mesa
            Eu não sei o seu endereço ...

            (verão de 48)
            Chegou uma carta de Roger
            Ele pede mais quadros
            Eugenia Rappaport conversa comigo em húngaro
            Acho difícil responder
            As canções são bonitas
            Ela perdeu o marido na guerra ...

            Qualquer dia de 49
            Os quadros estão prontos
            Escrevo poemas em húngaro
            Eugênia disse que parece poesia de criança...

            1950
            Fizeram uma reforma no jardim
            Roger mandou um chofer buscar os quadros
            Ganhei um boné
            Preciso de óculos de sol
            Recebi um cartão de Stefania, a letra não é sua
            Stefania se esqueceu de mim...
          
            1957
            Eugenia está doente
            Ela disse que vai morrer
            Eu disse que não vou deixar, ela riu muito
            Roger sempre manda um chofer buscar os quadros
            Eugenia ajuda a preparar as telas
            Escrevi para Stefania para o endereço de Roger
            Devolveram a carta
            Não gosto das cortinas novas do quarto
            Prometeram repor as antigas...

            Primavera de 59
            Eugenia morreu de manhã
            Deixaram que eu ficasse ao seu lado
            Ela parecia sorrir
            Apertou a minha mão
            Eu não consegui chorar
            Pintei um arco-íris e um jardim
            Roger veio pessoalmente trazer material
            Eu não quis entregar o arco-íris
            Eu disse que era de Eugenia
            Roger ameaçou que eu ficaria no isolamento
            Roger levou o quadro
            Eu chorei...

            Verão de 66
            Estou nesta Colônia há vinte anos
            Estou ainda vivo porque Roger me pede quadros
            É o que sei fazer
            Tenho um amigo tipógrafo
            Ele está cego
            Pescamos juntos no lago
            Não se ouvem mais gritos por aqui
            Acho que mudaram o regulamento ...

            Qualquer dia de 68
            Roger fez uma visita rápida
            Disse que se casou com uma moça italiana
            Disse que venderam os bens da família
            Comprou um terreno no litoral
            Prometeu que me levaria para casa
            Eu ainda acredito no que Roger diz
            Tenho medo de ser abandonado
            Transferiram o diretor da colônia
            Agora temos uma diretora ...

            1971
            Construíram novos pavilhões
            Tem muita gente nova
            Não entendo porque mandam tantos jovens
            Há muitas mulheres, também
            Poucos recebem visitas
            Menos ainda ganham presentes
            Fizeram uma festa de Natal
            Roger mandou um relógio
            Dei o relógio para o copeiro
            Ele não mais esquece a hora do meu chá ...

            Outono de 72
            Choveu muito
            Abriram uma avenida enorme
            Posso ver os caminhões na estrada
            A buzina me incomoda um pouco
            Fiz um painel enorme que levaram para o restaurante
            A cozinha pegou fogo e queimou tudo
            O painel sumiu, mas tenho o esboço
            Vou guardar para Stefania
            Um dia ela virá...

            1980
            Ganhei uma televisão de Roger
            Não gosto de televisão
            Emprestei para o pessoal da lavanderia
            As passadeiras não reclamam de dor nas costas
            Passam sentadas
            Roger pediu outros quadros maiores
            Levou num caminhão
            Acho que Roger ficou importante
            Deve morar num palácio para guardar todos os quadros...

            1989
            Estou doente, enxergo mal
            A tosse me  incomoda
            Pior são as dores nas mãos
            Os dedos estão retorcidos, nodosos
            Não consigo pintar, as mãos tremem
            O médico disse que é artrose
            Prefiro ficar no jardim
            Ainda tenho o boné e óculos de sol
            Aqui me chamam de vovô
            Roger manda os remédios pelo correio
            Eu troco por balas e caramelos
            Os moleques trepam nos muros para roubar as frutas
            O senhor Aquino mandava cortar os galhos...

            1993
            Roger nunca mais aparece
            Não pede mais quadros  
            Não mais escreve
            Acho que ele está doente
            Stefania não responde às cartas
            Tem uma enfermeira parecida com Eugenia
            Ela escreve as cartas para mim
            E me obriga a tomar os remédios
            Não me lembro onde deixei a chave do armário
            Instalaram um vídeo cassete na sala de estar
            O filme de hoje foi sobre um pintor
            Não consigo me lembrar quem é...

            1994
            Hoje comemoraram o meu aniversário
            Acho que se enganaram
            Mas eu gosto muito de bolo
            Recebi um cartão de Roger e uma foto da casa na praia
            É uma pena que ele não tenha filhos
            Crianças adoram o mar...
            PS Roger disse que tem um presente para mim
            Para quando eu sair daqui
            Acho que ele ficou velho
            Ninguém me vai deixar ir embora
            Acho que nem eu quero.

Certa tarde, um copeiro levou o lanche e reparou no álbum sobre a escrivaninha de Stênio. Curioso, abriu o livro e deparou com a foto do artista falecido na contracapa. Comentou com o tradutor que conhecia aquela pessoa da foto; era a única que visitava Stênio na Colônia e levava embora os seus quadros. Stênio, que parecia distraído, na verdade atentara para o comentário do copeiro e, pela primeira vez manifestou um comportamento diferente. Levantou-se, pegou o bilhete que o tradutor deixara na escrivaninha perguntando sobre o destinatário da carta, e o colocou sobre a fotografia no álbum do artista falecido. O tradutor julgou ter encontrado uma pista; abraçou  Stênio e se despediu.


Lallo deixa a colônia.

A viúva do falecido artista concordou em se encontrar com o tradutor, assim foi informada das visitas de seu marido à Colônia.
Fez um esforço de memória, nada conseguiu recordar; prometeu colaborar pesquisando os documentos do artista e anotações pessoais sob sua guarda. Semanas depois telefonou ao tradutor informando ter encontrado em uma antiga agenda o endereço de Stefania de Aquino, casada com um diplomata. Graças aos funcionários do Ministério das Relações Exteriores soube-se que o último posto do diplomata antes de morrer fora em Marrocos. Nenhuma informação sobre sua viúva.                                                                          
O tradutor recorreu à ajuda de sua colega marroquina do Departamento de Línguas da Universidade. Via Internet chegaram notícias fornecidas por uma camareira do Consulado; Stefania residia nos Estados Unidos. A comunidade brasileira residente em Nova York localizou, finalmente, a esperada senhora. Numa longa carta, o tradutor descreveu os acontecimentos.

Stefania Lallo Aquino Loyola desembarcou na cidade.

Stenio Lallo, impassível em cinquenta anos vividos na Colônia, fechou os olhos ao ser beijado pela irmã. Ela não soube explicar porque Stênio escrevia em Húngaro, embora fosse fluente em Inglês. Ambos estudaram com uma professora inglesa.
Seus pais foram riquíssimos industriais têxteis; perderam a fortuna, suicidaram-se num pacto de morte; os três filhos ficaram sob a guarda da família Aquino.
Stefania Lallo se casou, tornando-se pelo casamento a Senhora Aquino Loyola aos dezoito anos de idade e foi morar em Portugal;  o caçula Stefan vitimado pela paralisia infantil faleceu ainda criança, quanto a Stenio, na opinião dos tios, enlouqueceu.

Stefania, com algum esforço, identificou a foto do falecido artista na contracapa do álbum. Lembrou-se dele, ainda garoto, bem mais moço que Stenio Lallo; filho ou neto da governanta estrangeira dos Aquino, não tinha certeza; mas o garoto foi adotado pela família. Chamava-se Roger, antes de adotar o nome artístico com o qual ficou reconhecido.
Stenio e Roger eram muito parecidos; os mesmos cabelos louros, olhos azuis e gostavam de pintura; Roger era mais bonito, mais impetuoso e mais viril. Colecionavam gravuras, faziam cópias, esboços, pintavam retratos e paisagens.
As pinturas de Stenio eram mais bonitas, mais vibrantes, mais elaboradas e mais apreciadas; as diferenças de estilo e técnicas ficaram mais evidentes; as críticas favoráveis tornaram-se constantes.
Um ressentimento para com Stenio nasceu junto à família Aquino, que passou a ser tratado com indiferença; não tanto por parte de Roger. Que continuou a pintar enquanto Stenio foi trabalhar numa tipografia. Mandaram Roger para Paris e Stenio para Agnes de Deus.
      
Durante o relato, o tradutor observara Stenio que parecia distraído rabiscando num bloco de apontamentos.
Stefania se despediu do irmão com um beijo prometendo voltar no dia seguinte.
Stenio segurou o braço do tradutor como se pedindo para permanecer; buscou no armário uma grande pasta e um caderno grosso e os entregou a ele. Após meses de silêncio, balbuciou algo que foi interpretado como um agradecimento.
O tradutor telefonou para Stefania pedindo-lhe que permanecesse mais tempo com o irmão durante as visitas e mergulhou no estudo do conteúdo da pasta.
Incontáveis esboços foram surgindo entre os papéis amarelados pelo tempo, porém bastante conservados. O caderno continha uma espécie de diário ou agenda; felizmente escritos em bom Português.
O impulso do tradutor foi correr para a Colônia, em busca do livro dado a Stenio, mas por ser muito tarde, madrugada; decidiu-se pela leitura do diário.
          
O sol surpreendeu o tradutor. Saiu correndo para a Colônia carregando a enorme pasta e o diário. Encontrou Stenio arrumando uma grande mala.
Stefania estava sentada na cama folheando o livro do falecido pintor.
A assistente social surgiu arrastando uma enorme caixa vazia de papelão.
Stenio apontou o armário. O tradutor entendeu e começou a colocar os blocos de anotações na caixa.
Stefania deixou o quarto sendo acompanhada da assistente social.
Stenio e o tradutor ficaram a sós e se fitaram. Palavras seriam desnecessárias naquele momento.

Dois funcionários se apresentaram para carregar os volumes.
No portão um carro estacionado, ao volante uma mulher de óculos escuros.
Colocaram a bagagem no porta-malas.
O tradutor e Stefania ladeavam Stenio que caminhava com dificuldade.
Entraram no carro e Stenio fechou os olhos. O tradutor percebeu lágrimas em seus olhos.

Rumaram para a estrada, a mesma que Stenio via da janela de seu quarto.
Chegaram ao litoral e Stenio reconheceu a casa da fotografia.
A viúva do artista abriu a enorme porta e convidou a todos para entrar.
Tomou Stenio pelas mãos e o levou a um aposento, um atelier.

Voz da mulher
          
            - Tudo isto aqui te pertence; peço-te perdão devolvendo a propriedade porque não posso devolver teus quadros nem tua juventude, mas saiba que eu tive conhecimento desta história somente agora, com a morte de Ralph.
            - Trata-se de justiça.
          
Stenio deixou a casa e se encaminhou para o mar. Chamou pelo nome de Eugenia e cantou uma canção húngara.

Poucos anos depois o tradutor publicou um romance com a história de Stenio.
Ganhou um prêmio literário.
            
daguinaga
Enviado por daguinaga em 16/07/2013
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